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Cannabis afeta a capacidade de dirigir por quantas horas?

Nos EUA, mais de 52 milhões de pessoas relataram o uso de cannabis só em 2021 - iStock
Nos EUA, mais de 52 milhões de pessoas relataram o uso de cannabis só em 2021 - iStock

Redação Publicado em 04/04/2025, às 10h00

Um estudo que acaba de ser publicado no Journal of Psychopharmacology descobriu que o uso da cannabis, planta que dá origem à maconha, pode prejudicar as principais habilidades de direção por até cinco horas e meia após o consumo. Até então, os especialistas acreditavam que os prejuízos durariam apenas três horas.

O estudo também revelou uma informação importante: muitos usuários se sentem prontos para dirigir muito antes de seu desempenho de direção retornar ao normal.

Leis nos EUA

Os pesquisadores foram motivados pela rápida expansão do uso legal de cannabis nos Estados Unidos e pelo crescente número de acidentes de carro envolvendo motoristas que testaram positivo para tetrahidrocanabinol (THC), o principal componente psicoativo da cannabis. 

Somente em 2021, mais de 52 milhões de norte-americanos relataram o uso de cannabis. No entanto, as pesquisas existentes não acompanharam o ritmo. A maioria dos estudos anteriores avaliou apenas a capacidade de dirigir dentro de uma janela estreita de três horas após o uso de cannabis.

Além disso, as leis atuais em muitos estados são baseadas nos níveis sanguíneos de THC para inferir a deficiência, embora descobertas anteriores tenham sugerido que esses níveis podem não refletir com precisão a capacidade de uma pessoa de dirigir com segurança.

Simulação em laboratório

Os pesquisadores projetaram um experimento de laboratório controlado que poderia medir vários aspectos do desempenho de direção por um longo período de tempo após o uso de cannabis. Eles recrutaram 38 homens e mulheres saudáveis ​​entre 18 e 40 anos, todos com pelo menos dois anos de experiência recente em direção em rodovias e que usavam cannabis pelo menos uma vez por semana.

A maioria dos participantes era usuária frequente. Para serem elegíveis, os participantes tinham que estar livres de condições médicas ou psiquiátricas significativas e tinham que se abster de cannabis por pelo menos 24 horas antes do teste.

O estudo usou um modelo randomizado, duplo-cego e controlado por placebo. Cada participante completou três sessões de um dia inteiro, durante as quais recebeu um placebo, uma dose baixa de cannabis ou uma dose mais alta, administrada por um vaporizador. Os participantes inalaram o vapor de forma padronizada para garantir uma dosagem igual em todo o grupo.

Vale destacar que muita gente consome formas comestíveis de cannabis, que demoram mais tempo para agir do que a maconha, por causa do processo digestivo. 

Doses mais baixas que a do mercado

As doses usadas (5,9% e 13% de THC) foram menores do que as comumente encontradas em produtos de cannabis disponíveis comercialmente, o que pode subestimar o grau de comprometimento visto em cenários do mundo real.

Durante um período de até oito horas após o uso de cannabis, os participantes completaram uma série de tarefas de direção simuladas em quatro pontos de tempo diferentes. Eles tinham que se manter na mesma faixa, seguir um carro e ultrapassar outros veículos, por exemplo, para que diferentes habilidades fossem testadas.

Habilidades avaliadas

No total, 19 medidas diferentes de comportamento de direção foram avaliadas. Os participantes também relataram regularmente o quão alterados se sentiam, o quão prejudicados acreditavam estar e se escolheriam dirigir em seu estado atual.

Os resultados mostraram deficiências claras e mensuráveis. Na tarefa de manutenção de faixa, por exemplo, os participantes mostraram menos correções de direção — uma indicação de atenção e controle reduzidos — por até 3,5 horas após a dose baixa e até 5,5 horas após a dose mais alta.

Na tarefa de seguir o carro, os participantes exibiram uso menos consistente do pedal do acelerador e reações mais lentas ao veículo da frente por até três horas após usar a dose mais alta.

Durante a tarefa de ultrapassagem, aqueles que receberam a dose alta escolheram espaços mais estreitos entre os carros, passaram mais tempo na faixa contrária e tiveram estimativas de tempo para colisão mais baixas — comportamentos que podem aumentar o risco de um acidente.

Segundo o principal autor do estudo, Shashwath Meda, da Universidade de Yale, deficiências de direção induzidas pela cannabis podem persistir por mais tempo do que se supunha anteriormente, com certos efeitos durando até 5 horas após o consumo de doses mais altas de THC (13%). “Este período excede a janela típica de 3 horas explorada em estudos anteriores”, reforçou.

Sensação x desempenho

Os pesquisadores também encontraram uma desconexão entre como os participantes se sentiam e qual o seu desempenho. Enquanto a maioria dos indivíduos relatou sentir-se prejudicada por apenas duas ou três horas, as deficiências de direção duraram mais.

Na verdade, muitos participantes disseram que estavam dispostos a dirigir apenas duas horas após usar cannabis, embora medidas objetivas mostrassem que seu desempenho ainda estava afetado. Essa incompatibilidade entre o julgamento subjetivo e a capacidade real sugere que as pessoas podem estar cientes dos riscos que representam ao dirigir sob influência de substâncias.

"Aproximadamente dois terços dos participantes estavam dispostos a dirigir apesar de estarem cientes de sua deficiência, destacando uma preocupação significativa com a segurança pública", observou Meda. "A prontidão autopercebida para dirigir não se alinha com medidas objetivas de desempenho de direção."

THC no sangue não parece importar

Os pesquisadores também testaram se a concentração de THC e seus metabólitos no sangue ou fluido oral poderiam prever o quão prejudicado alguém estava ao volante. Os pesquisadores não encontraram nenhuma relação consistente entre esses marcadores biológicos e o comportamento real de direção.

Em outras palavras, uma pessoa pode ter um alto nível de THC em seu sistema e dirigir com segurança, ou ter um nível baixo e ainda mostrar deficiências claras. Essa descoberta reforça as preocupações crescentes de que os níveis de THC no sangue não são indicadores confiáveis ​​de deficiência e podem não ser adequados para uso legal ou forense.

O que ainda precisa ser investigado

Embora o estudo tenha vários pontos fortes — incluindo seu exame detalhado dos comportamentos de direção, seu uso de doses padronizadas e sua janela de teste estendida — ele também teve algumas limitações. O tamanho da amostra foi modesto e incluiu poucos usuários ocasionais.

Além disso, Meda observou que as condições de direção simuladas não podem replicar totalmente as complexidades do mundo real, como cenários de tráfego imprevisíveis ou variáveis ​​ambientais.

Olhando para o futuro, a equipe de pesquisa planeja expandir essa linha de trabalho incorporando imagens cerebrais para explorar como a cannabis afeta a função cerebral durante a direção e examinar os efeitos de doses mais altas de THC.