MC Gui, onde se aprende cidadania digital?

Se pais, família e amigos balizam nossas condutas vida afora, é na escola que poderíamos aprender de forma mais ampla o que é bullying, e como identificar emoções nos nossos colegas resultantes de nossas atitudes

Jairo Bouer Publicado em 24/10/2019, às 07h33 - Atualizado em 25/10/2019, às 11h35

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Como boa parte de quem pensa e sente, também fiquei triste e chocado com o vídeo postado por MC Gui em suas redes sociais no início dessa semana, expondo uma garotinha americana de oito anos a momentos constrangedores. Ele fez imagens que revelam uma menina visivelmente consternada ao perceber que estava sendo filmada e alvo de gozações. Expor o outro dessa forma cruel tem um nome: bullying ou humilhação, como prefiram.

Os argumentos em sua defesa além de pífios: “internet anda muita chata”, “achei parecido com um personagem de filme de terror” ou “não foi intencional, só uma brincadeira”, só reforçam um certo grau de insensibilidade, de falta de empatia e, talvez, uma dificuldade concreta de entender o impacto que certas ações provocam nas emoções do outro.

Para além de criticar a postura de um cantor e influenciador digital que tem quase 8 milhões de seguidores no Instagram, a maioria composta por crianças e jovens, fica uma questão: se MC Gui entendesse o peso e as possíveis consequências de suas ações nas redes sociais (cidadania digital) e se tivesse familiaridade com noções básicas da cultura de prevenção ao bullying, será que essa atitude lastimável poderia ter sido evitada? Creio que sim! Mas onde se aprende isso?

Boa parte de nossas atitudes (não só em redes sociais, mas na vida em geral) se baseia no arcabouço de princípios que aprendemos ainda na infância com nossos pais e familiares. Depois, essas noções de civilidade, de convivência, de ética, são testadas, postas à prova, “calibradas” em nossas interações sociais com os grupos dos quais fazemos parte.

Se pais, família e amigos balizam nossas condutas vida afora, é na escola que poderíamos aprender de forma mais ampla o que é bullying, como identificar emoções nos nossos colegas resultantes de nossas atitudes, como evitar situações em que os outros se sintam humilhados e, como trabalhar a comunidade para que ela não funcione simplesmente como plateia para que um agressor cometa bullying.

Poxa, mas será que tem gente que não percebe que está praticando bullying, da mesma forma que tem grupo de amigos que não se importa que o “líder” da turma esteja passando do ponto? Acho pouco provável que alguém não perceba que está deixando o outro chateado (ainda mais uma criança) ou que uma turma não se dê conta que embarcou em um episódio de humilhação pública. A explicação? Deve haver algum tipo de ganho nessa prática! Enquanto o agressor busca destaque, poder, controle, fama de engraçado (o que pode talvez se traduzir em mais seguidores nas redes?), a turma passa a ser mais aceita, mais acolhida, mais recompensada pelo líder.

Para romper esse ciclo, não acho que haja pai e mãe que puxem a orelha que façam milagre sozinhos (ainda mais quando o marmanjo já avançou adolescência adentro). Só um trabalho efetivo da educação, focada em valores, limites e comportamento cidadão dá conta do recado. Em vários países, já se organizam dias de combate ao bullying nas escolas, escolas aplicam metodologias sistematizadas de prevenção e combate a esse tipo de agressão, agressores recebem acompanhamento terapêutico para que percebam melhor as razões de estarem incidindo nesse tipo de comportamento, entre outras tantas possibilidades. E os resultados de transformar a sala de aula em palco dessa discussão são muito bons. Da mesma forma que escolas que discutem gênero protegem meninos e meninas de sofrimentos atrozes em sua vida futura (mas esse é tema para outro papo).

Se a escola que discute bullying é uma grande aliada na diminuição desse fenômeno, não ter tido acesso a esse tipo de trabalho não pode servir de desculpa para se persistir em um comportamento antissocial. Um erro, uma falha, um equívoco pode ser uma excelente oportunidade para uma mudança radical de atitude, desde que o desejo de mudança seja autêntico. E se tem gente que mesmo assim segue com dificuldade para entender o que é empatia ou sofrimento do outro, está aí um ótimo motivo para buscar um profissional de saúde mental. São eles que podem ajudar as pessoas a se tornarem seres humanos melhores, que possam sofrer menos e provocar menos dor nos outros também.

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