Pandemia fez mais mulheres congelarem os óvulos, diz especialista

Quando a gravidez se torna algo mais complexo, a fertilização in vitro é o tratamento mais procurado

Cármen Guaresemin Publicado em 14/06/2022, às 12h00

O procedimento para retirar os óvulos é rápido e feito sob sedação anestésica - iStock

Os tratamentos de reprodução humana estão cada dia mais abrangentes. O que é uma ótima notícia, já que as mulheres estão adiando a gravidez para depois dos 35 anos, quando a fertilidade já não é mais a mesma de quando tinham 20 e poucos. Este é um dos principais motivos da dificuldade em engravidar. Outros motivos: síndrome dos ovários policísticos, endometriose e ISTs.  No caso dos homens, a varicocele é a principal vilã.

Entrevistamos o médico ginecologista, obstetra e especialista em Reprodução Humana Fernando Prado, que tira algumas dúvidas sobre o tema:

Quais as principais causas de infertilidade dos casais atualmente?
Existem diversas causas para a infertilidade. As mais comuns, na mulher, são a falta de ovulação (geralmente por ovários policísticos), problemas nas tubas uterinas (por endometriose ou infecção), a própria endometriose e, muito importante, a idade da mulher maior que 35 anos.

Já nos homens, a causa mais comum é a varicocele, que é a dilatação das veias da bolsa testicular. Também temos vasectomia (homens começam um novo relacionamento com mulheres que querem ter filhos e querem reverter o procedimento), fatores genéticos que implicam na baixa produção de espermatozoides e o uso de hormônios anabolizantes.

Pode comentar cada uma, resumidamente, por favor?

A falta de ovulação, anovulação crônica, tem várias causas. A mais comum é a síndrome dos ovários policísticos. A mulher geralmente tem resistência à insulina associada e aumento nos hormônios masculinos, o que pode levar ao aumento de pelos pelo corpo, acne e ausência de menstruação.

As obstruções nas tubas uterinas, ou trompas, podem ser causadas por sequelas de infecções sexualmente transmissíveis, como gonorreia ou clamídia. Essas bactérias lesam a mucosa das tubas, causando a obstrução. Outra causa de lesão tubária é a endometriose, doença que pode levar a aderências na pelve e, com isso, gerar a infertilidade.

A idade da mulher é um fator muito importante, pois, após os 35 anos, a quantidade, mas principalmente a qualidade dos óvulos, cai muito rapidamente. Por isso é fundamental que as mulheres engravidem antes dos 35 anos de idade ou que congelem seus óvulos, preservando a fertilidade.

No lado masculino, a varicocele é a causa mais frequente. Atinge 15% dos homens e pode levar a uma redução na produção dos espermatozoides e piora na sua qualidade. A varicocele é um defeito nas válvulas das veias que drenam os testículos, que acabam por ficar dilatadas e causando refluxo de sangue. Esse sangue que reflui para os testículos aquece as gônadas e retém substâncias tóxicas nocivas. Esses dois fatores, calor local e toxinas, são os causadores da piora da quantidade e qualidade do sêmen.

Quais são os tratamentos mais procurados por casais que têm dificuldades em engravidar?
Em um atendimento mais inicial, geralmente com o ginecologista geral, são procurados os casos mais simples, em que a orientação sobre o período fértil ou mesmo uma indução para ovulação podem resolver a questão. Já para casos mais complexos, tanto da mulher quanto do homem, o especialista em reprodução humana conduz o tratamento. Nessas situações a fertilização in vitro é o tratamento mais procurado.

Antes, a mulher era sempre vista como a principal responsável pelo casal não conseguir ter filhos. Essa mentalidade mudou?
Infelizmente, não mudou. Ainda recai sobre a mulher a maior responsabilidade e o maior peso sobre de quem é a “culpa” da infertilidade. São conceitos ultrapassados e, muitas vezes, preconceituosos, já que os fatores masculinos que levam à infertilidade podem ser tão comuns quanto os femininos. O peso sobre o tratamento recai mais sobre a mulher, já que quase sempre é apenas ela que usa os hormônios para induzir a ovulação, faz os exames mais importantes e invasivos e, principalmente, é nela que a gravidez vai acontecer.

No entanto, isso não retira do homem seu papel importante e fundamental no processo, seja também fazendo o tratamento ou participando de forma ativa no apoio e companheirismo para que os melhores resultados sejam alcançados.

Há alguma novidade na área? Tratamento, medicamento, procedimento...
A maior novidade não é exatamente um tratamento em si, mas uma mudança de comportamento e, ao mesmo tempo, uma conscientização sobre a importância dos óvulos. Temos visto muito, desde meados de 2020, em virtude das incertezas que a pandemia causou, um grande aumento no congelamento de óvulos. As mulheres decidiram preservar sua fertilidade, sabendo que o tempo é um grande inimigo da qualidade dos óvulos. Isso trouxe uma mudança social que ainda sentiremos efeitos nas próximas décadas: as mulheres escolhendo quando querem engravidar, no melhor momento da vida, não se atendo tanto à questão idade e relógio biológico.

Então, elas já estão mais cientes que podem congelar os óvulos?
Estão. Ainda não tanto quanto seria o cenário ideal, mas, sem dúvida, hoje essa questão não é mais vista como lenda ou ficção científica. A preservação da fertilidade é viável, factível e, realmente, traz uma liberdade para que a mulher não tenha a dicotomia família versus carreira. Ela pode ter as duas coisas, cada qual em seu momento ideal.

Por favor, explique como funciona o processo de congelamento.
É preciso inicialmente fazer alguns exames de rotina, na sua maioria simples, como ultrassom transvaginal, ultrassom de mamas e alguns hormônios, além de sorologias (para excluir a presença de doenças sexualmente transmissíveis). Uma vez os exames estando prontos, a mulher já pode receber os hormônios que irão estimular a ovulação.

São hormônios idênticos aos naturais, incluindo o FSH (hormônio folículo estimulante), e que irão resgatar óvulos que iriam entrar em atrofia. Graças ao efeito desses óvulos, a mulher consegue oferecer vários deles após dez a 12 dias de uso das medicações. Idealmente, orientamos congelar 15 óvulos.

Quando o ultrassom mostra que os óvulos estão no tamanho certo, ou seja, maduros, é feito um procedimento cirúrgico minimamente invasivo. Neste procedimento os óvulos são retirados por via vaginal, com o auxílio de uma agulha acoplada ao ultrassom, sem cortes ou cicatrizes. Os óvulos recuperados são classificados e congelados. O procedimento é rápido, dura ao redor de 20 a 30 minutos e é feito sob sedação anestésica. (A medicina ainda não definiu por quanto tempo os óvulos podem ficar congelados. Atualmente, o mais indicado são dez anos).

Os médicos estão mais atentos a passar estas informações para as pacientes antes que seja tarde?
Infelizmente, as informações ainda estão muito restritas aos especialistas em reprodução humana. Porém, os ginecologistas, oncologistas e urologistas têm cada vez mais tido contato com as opções de preservação da fertilidade e têm sido fundamentais para que mais e mais pacientes possam deixar seus gametas congelados.

Fonte: Fernando Prado é médico ginecologista, obstetra e especialista em Reprodução Humana, Doutor pela Universidade Federal de São Paulo e pelo Imperial College London, de Londres. Graduado pela Universidade Federal de São Paulo, Membro da Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva (ASRM) e da Sociedade Europeia de Reprodução Humana (ESHRE). Diretor clínico da Neo Vita e coordenador médico da Embriológica.

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